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Neto Bozelli. "A informação e os dados são as coisas mais importantes de qualquer negócio"

Neto Bozelli. "A informação e os dados são as coisas mais importantes de qualquer negócio"FOTOS: GERRÁ MACCAGNAN

Entrevista

Com o olhar sempre à frente

Criador da Process Telecom, a maior provedora de internet da cidade, Neto Bozelli apresenta trajetória de pioneirismo e visão empresarial

Texto de Sérgio Gabriel

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Em meados da década de 1990, Neto Bozelli fez uma visita à Redação de A Comarca. Sempre atento às tendências tecnológicas de cada época, ele anunciava ao diretor do jornal, Paulo Sergio Gabriel, a revolução que a internet provocaria nas comunicações em todo o mundo. E, didaticamente, explicava: "A partir de agora, você não enviará mais uma carta, ou um fax; você vai mandar um e-mail".

Este episódio exemplifica muito bem o pioneirismo e a visão do empresário, que havia criado a Process Informática no dia 13 de maio de 1987. A empresa evoluiu para Process Telecom e – credenciada pela Anatel – realizou a implantação de fibra óptica em 100% da cidade, disponibilizando serviços de telefonia, TV por assinatura e internet. No entanto, sua trajetória profissional teve início muito antes, nos anos 1980, junto ao Supermercado Bozelli. "Há muitos anos atrás, meu tio Eyter montou a Loja 1 com meu avô Oreste. Era um mercadinho antigo, bem pequeno, uma mercearia. Meu pai, Nerino, veio a fazer parte da sociedade e eles começaram a expandir. Tiveram quatro lojas! A Loja 1 era na Rua João Pessoa (Centro), ao lado da antiga Panificadora Toscana. A Loja 2 também ficava na João Pessoa, do lado da Farmácia do Comelli. A Loja 3 era subindo a Avenida 15 de Novembro (Bairro Alto) e a Loja 4 ficava na Rua Rui Barbosa, na Vila Santa Cruz", relembra Neto – que não se chama Neto...

"Meu nome é José Oreste Bozelli. Neto é apelido. Porque José era o pai da minha mãe e Oreste era o pai do meu pai. Quando eu era muito novo, eles falavam que eu era o netinho, com o nome dos dois avós. Ficou Netinho... e aí virou Neto. Se disserem outro nome, ninguém falará que sou eu", relata o filho de Nerino Bozelli e Nilza Zangari Bozelli, nascido em Matão no dia 6 de dezembro de 1964 (61 anos), que estudou na Escola 'José Inocêncio da Costa' (Grupão) e na Escola 'Prof. Henrique Morato'. "Fiz o Ensino Superior em Araraquara, mas não consegui completar; foram quase três anos na faculdade de Administração, da antiga Fefiara. O ônibus passava na frente da Loja 4 do Supermercado Bozelli; eu ainda nem tinha acabado o meu serviço... Juntava o material debaixo do braço e subia no ônibus, sem janta, sem banho, um sufoco... Dava um sono! Voltava pra casa de madrugada e acordava cedo pra trabalhar. Aí, falei: 'Não dá mais! Se eu continuar, isso vai me fazer mal'".

Neste mesmo período, Neto descarregava sua adrenalina com a paixão que o movia como piloto de kart nas diversas corridas que disputou pelo interior paulista. Mas nada abalava mais o seu coração do que a jovem Luciana Izildinha Tolino: "Quando começamos a namorar, ela tinha uns 16 anos. Esses dias, o Mazão (Marcelo Prado) me mandou uma fotografia da época em que a Luciana jogava vôlei. Ela jogava bem! Acho que a conheci no Grêmio; depois, corri um carnaval inteiro atrás dela. E nada. Continuei insistindo por um bom tempo, até que uma noite, eu estava com uma moto DT 180 na esquina de trás da delegacia, nos encontramos e pedi a Luciana em namoro. Ela aceitou. Daí pra frente... já estamos casados há mais de 30 anos. E temos o Rafael (29 anos), o Rodrigo (25) e a Rafaela (22)".

Com apenas 24 anos, Neto foi vereador (1989 a 1992) e presidente da Associação Comercial e Empresarial – ACE-Matão (1989 a 1991). Bom de conversa, de convívio social extremamente agradável, Neto recebeu a reportagem de A Comarca em seu escritório na Process, onde contou estas e outras saborosas histórias, presentes na entrevista a seguir.

Não vou negar pra ninguém que meu sonho era ser prefeito de Matão

O Supermercado Bozelli deve ter lhe proporcionado muito aprendizado. Quando você começou a trabalhar?

Eu não sou muito bom de data. Quando surgem perguntas assim, eu passo pra minha esposa (risos). Data, ela sabe tudo; eu sou uma negação. Comecei no supermercado com uns 14 anos, mais ou menos. Com uns 17, assumi todo o departamento financeiro, no lugar da minha prima Zequinha – que veio a falecer, muitos anos depois... Era uma carga muito grande, pois chegaram a ser quatro mercados, com um faturamento alto. Era o supermercado mais importante da cidade. Eu tinha 17 anos e assumi essa bucha nas costas. Até hoje, às vezes sonho que por algum motivo esqueci de pagar uma duplicata, buscar um recibo ou fazer um depósito no banco. Era uma responsabilidade muito grande para a idade, mas aquilo me ajudou muito, me deu muito conhecimento, muita bagagem; porém, confesso que me deu alguns traumas também, pela pouca idade que eu tinha. Mas valeu a pena.

Como foi aquela memorável corrida de kart, ao redor da Praça da Abolição, que você disputou em 1984?

Reprodução da página de esportes de A Comarca, edição de sábado, 12 de maio de 1984: “Neto lidera campeonato e quer venc
Reprodução da página de esportes de A Comarca, edição de sábado, 12 de maio de 1984: “Neto lidera campeonato e quer vencer em Matão”.

Na época, fizeram um campeonato interiorano chamado Copa Lenine Severino. Porque o Campeonato Paulista era basicamente só em Interlagos (São Paulo) e em algumas poucas cidades que tinham kartódromo, como Americana, Limeira... A Copa Lenine Severino era em circuito de rua, muito mais emocionante e perigoso do que em kartódromo. Com muito esforço, trouxemos uma etapa para Matão. O Tadeo Gimenes ajudou bastante. Foi muito complicado, custoso e perigoso, mas deu tudo certo. Reuniu um grande público ao redor da Praça da Abolição. Quem ganhou a corrida foi o Álvaro Cândido (Paraguaio), grande piloto de motocross. Cheguei em segundo lugar, graças a Deus. Eu gostava muito! Uma vez a cada 40 dias tinha uma corrida no interior. Meu pai emprestava a perua Kombi do Supermercado Bozelli, eu colocava o kart lá dentro, junto com uns três ou quatro loucos que me acompanhavam – Odininho Bambozzi, Júnior Pichi, César Fernandes – e íamos todos. Eu tinha que trabalhar o mês inteiro pra guardar dinheiro e gastar numa corrida de kart. Custava uma grana! Chegou um momento que o dinheiro acabou e eu precisava terminar o campeonato. Aí, encostei no Banespa, né? Eu fazia o financeiro do Bozelli, tinha certa liberdade com o gerente... Falei: "Meu amigo, preciso de um empréstimo". Lembro que paguei umas vinte e poucas parcelas e, graças a Deus, consegui terminar o campeonato.

Você também tem uma passagem boa pelo Festival de Águas Claras, em Iacanga...

Essa história também é bacana. Meu pai tentava fazer todos os meus gostos; e na medida do possível, eu retribuía me dedicando, trabalhando. Uma vez, ele comprou um caminhão de uma distribuidora de cerveja com o símbolo da Skol na porta. Eu pedi emprestado para ir com uma turma de amigos ao Festival de Águas Claras. O 'Chocolate' (Rubens Cerqueira) me emprestou um toldinho, que ele adaptava na carreta para levar os pedreiros, e coube certinho nesse caminhão, que chamava a atenção – todo amarelo com o símbolo da Skol. Colocamos colchões atrás. Dormia um na cabine, um em cima do banco... era uma farra. Que época boa!

Você foi o vereador mais novo de Matão?

Não, eu fui o segundo mais novo (assumiu a vereança com 24 anos). O primeiro foi o Amauri Squisatti (nascido em 09/01/1966, assumiu ainda com 22 anos), que já faleceu (16/09/1990). Eu sou o vereador mais novo de Matão, vivo. Fui eleito pelo PTB, que tinha o Jarbas Tortorello como presidente, por dois votos a mais (200 a 198) do que meu suplente, Onofre Wetterich. Tive o prazer e a honra de ajudar na elaboração da Constituinte Municipal. Lembro que trabalhamos até de madrugada; eu, Oswaldo Vanin, Celso Perche, Luiz Roberto Ferrante, Aparecido do Carmo de Souza (Cidinho)... Foi uma experiência marcante e muito importante. Eu sempre tive conversas e aspirações políticas. Não vou negar pra ninguém que meu sonho era ser prefeito de Matão. Um dia, quando o Adauto era prefeito, ele me recebeu em seu gabinete. Nós tínhamos muita amizade; e falei pra ele que um dia eu sentaria naquela cadeira. Ele falou: "Quer sentar um pouquinho agora, para experimentar?". Eu falei: "Não, vai chegar a minha época". Mas aí a vida muda e as aspirações mudam... Hoje em dia, para ser político é bastante complicado, mas sempre foi o meu sonho. Minha mulher sabe, minha família sabe. É um sonho adormecido.

Como foi sua experiência à frente da ACE-Matão?

Eu era muito novo... Resolvi me candidatar porque eram sempre os mesmos, e estávamos enfrentando problemas com muito cheque sem fundo na praça. Meu concorrente foi o Mauro Mengatti. Fiz um pouquinho de política e fui eleito. Aí fiz uma revolução naquela associação! No primeiro ano de mandato, eu informatizei toda a entidade. Naquela época, quando o comerciante ligava para o então SPC (Serviço de Proteção ao Crédito), o atendente tinha que procurar nas fichinhas... ficava uns dez minutos e voltava. Só tinham duas linhas telefônicas. Era um caos! Entrei e informatizei tudo. Também realizamos a Promoção Natal da Sorte. Depois, fui eleito novamente (2001), mas logo saí, pois foi apenas um mandato tampão para segurar outras frentes. Aí, o 'Português' (Antonio Augusto Coelho) assumiu.

Se não tiver dados para analisar, nenhum negócio vai pra frente

Como foi que surgiu a Process Informática?

Quando eu trabalhava no Supermercado Bozelli, sempre tive a ideia de informatizar o setor financeiro. Assim, comprei um computador, em que se usava uma televisão em preto e branco e um teclado. O lugar onde 'salvava' o programa era um gravador cassete portátil da marca Itachi. Foi aí que comecei a programar. Para fazer uma rotininha eram dois dias de trabalho. Eu sempre achei que a informação e os dados são as coisas mais importantes de qualquer negócio. Se não tiver dados pra analisar, nenhum negócio vai pra frente. Eu já não estava mais contente dentro do supermercado e resolvi sair para montar a Process. Meu pai me emprestou dinheiro pra comprar o primeiro computador. Começamos na esquina da Avenida 15 de Novembro com a Rua João Pessoa, na parte de cima do prédio onde ficava o Javali Dourado – na época, o Cebola estava chegando a Matão para trabalhar pro Walter Cardim. A Process começou como um birô, afinal, naquela época, quem prestava serviço para outras empresas com um computador? Custava muito caro! No comércio, o controle era feito tudo na fichinha. Então comecei a rodar crediário, folha de pagamento, contas a pagar, e tirava uma listagem por dia para várias empresas. Os meus sócios eram o César Fernandes, o Rubinho Mingossi e o Bira. A Process já foi um monte de coisa, né?

Pegamos o nicho de mercado da venda de celulares e a empresa deu um salto

A empresa mudou de endereço e passou a vender produtos.

Do Centro, a Process foi para o Bairro Alto, também na 15 de Novembro, porque não tínhamos dinheiro pra pagar o aluguel. De lá, foi para um prédio na frente da Bambozzi. Depois precisou voltar para o Centro, porque já vendia computador e começou a vender celular; então, nos mudamos para a esquina da Avenida Ernesto Gorgatti com a Rua Cesário Motta. Pegamos o nicho de mercado da venda de celulares e a empresa deu um salto impressionante. Quando a Vivo liberava linha, eu avisava o pessoal que estava na espera. Eu me lembro que juntava umas 20, 30 pessoas na fila até metade do quarteirão. Nesse meio tempo, quando eu já trabalhava com a Vivo, o Elcio Tarallo me procurou e falou: "Neto, vai surgir um celular pré-pago. Você quer pegar a distribuição de cartão?". Chamei meu irmão (Nerino Bozelli Junior) e começamos a representar. Aquilo virou um alvoroço! A Tess foi comprada pela Claro e o volume daquele negócio cresceu demais, porque tinha muito mais celular pré-pago do que o pós-pago com conta. Logo em seguida, a Vivo lançou o seu primeiro pré-pago - o Baby. Eu tinha a distribuição de toda a área 16 da Vivo e o meu irmão tinha toda a área 16 da Claro. Depois pegamos parte de Santos, Campinas... O volume era muito grande! Posteriormente, a recarga passou a ser feita por uma maquininha, por agência bancária, e nós paramos tanto com a Claro como com a Vivo.

Comente sobre o pioneirismo da Process quanto à introdução da internet no município.

Na verdade, eu me arrependo porque deveria ter acreditado mais na internet e expandido para outras cidades. Eu já trabalhava com tanta coisa... Mas se eu tivesse focado só na internet, talvez hoje seriam grandes empresas provedoras – como acontece em várias cidades. Eu perdi o 'time' de ir pra fora. Deveria ter largado tudo e ido só atrás da internet. Mas, enfim, foi uma escolha da época. Tempos depois, acabei com tudo o que me dava dor de cabeça e pouco retorno. Parei com o Diskfone, que eu havia criado; parei com o portal de notícias, que me dava dor de cabeça, processo, mas era a minha vontade política de bater de frente com uma coluna que chamava 'Boca no Trombone'. Parei com venda de computador, conserto de celular e investi em diversas tecnologias para atuar como uma empresa provedora de internet. Até chegar à fibra ótica. Aí a internet deu um salto maravilhoso! Grandes velocidades. A cada dia vai aumentando a capacidade do volume de dados que se passa dentro de uma fibra. O problema da internet no Brasil não é a qualidade, é que ela não chega a todos os lugares. Embora os provedores regionais estão fazendo com que a internet chegue às rodovias, seja por fibra ótica ou rádios de grande capacidade. Por segurança, né? Mas o Brasil tá 'bem na fita' a nível da internet.

Deveria ter acreditado mais na internet e expandido para outras cidades

Como você encara a revolução que a Inteligência Artificial está causando – e ainda provocará – em todos os setores de atividade?

Eu me surpreendo a cada dia, como usuário, como leitor do mundo tecnológico, como provedor da rede que interliga as pessoas, a internet. Um dos números que mais me impressionaram são referentes à energia que os computadores de Inteligência Artificial irão consumir. São assustadores. Profissionais de vários setores terão que se adaptar, como advogados, por exemplo, pois a IA é uma biblioteca jurídica enorme que pode ser consultada. Na medicina, a IA poderá alimentar computadores que farão cirurgia ou diagnóstico, embora ainda esteja um pouco distante dela substituir a mão do ser humano. Na área de engenharia, ao ser alimentada com dados e informações, a IA pode fazer um projeto completo, sem erro de cálculo, comparando estruturas. É uma coisa assustadora. Precisamos tomar cuidado com a forma como ela é usada, mas sou totalmente contra qualquer tipo de restrição governamental. Hoje temos um mercado civil na internet que já regula tudo o que for necessário. É uma questão de bom senso. Já existem leis suficientes para penalizar qualquer tipo de atitude. Vamos olhar o benefício que a internet traz, e não só o malefício; por exemplo, com a modalidade de Ensino à Distância (EAD), hoje só não estuda quem não quer.

Você é uma pessoa que preza muito o convívio social. Devido ao excesso de contato em ambiente virtual, muitos jovens têm apresentado dificuldade para se relacionar. Como você vê essa questão?

Isso é um problema muito sério, mas não é um problema de governo, nem de rede social, é um problema de educação. Os meus filhos sempre foram criados na rua, onde jogavam futebol, soltavam pipa, andavam de bicicleta. Acho que os pais têm que voltar a tirar os filhos de dentro de casa. Teve uma época anterior em que as crianças ficavam só na televisão, no videogame. Agora, ficam no celular. É tudo uma questão cultural. Acontece que hoje em dia, por exemplo, a gente não vive sem celular. Eu uso como ferramenta de trabalho, mas, quando tenho um tempinho, começo a ver alguma coisa que me interessa. E pela engenharia da rede, ela começa a me devolver o conteúdo que gosto. Também há muito conhecimento, muita informação, muita cultura. Mas chega uma hora que o pai precisa tirar o celular do filho. Hoje, vemos criança com 4 ou 5 anos publicando nas redes sociais! Então é só colocar limite. Essa é uma questão para os pais.

Sobre aquele seu antigo sonho, se você fosse prefeito de Matão, quais medidas tomaria para o desenvolvimento da cidade?

Eu começaria fazendo um grande parque industrial às margens da 'Washington Luís' ou da 'Faria Lima', duas rodovias maravilhosas se encontram. Então, eu desapropriaria duas áreas laterais; não ficaria fazendo distrito industrial em Toriba, em Silvânia. Eu pensaria muito maior. Traria empresas que geram receita alta, empresas de tecnologia. Daria todos os incentivos possíveis e legais para as empresas que aqui já estão. Lugar nenhum no mundo cresce se ele não gerar emprego, que pague bem o funcionário. A gente precisa diversificar, ter empresas de outros ramos, para o dinheiro girar mais e o comércio ganhar. Todos ganhariam mais. Ao se trazer uma grande indústria para Matão, profissionais de outros lugares também viriam. As pessoas migram. A Embraer foi para Gavião Peixoto e a cidade está se desenvolvendo.

Traria empresas que geram receita alta, empresas de tecnologia
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